Aluno de colégio de elite tem 20 dias a mais de escola que o da rede pública

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Alunos de colégios de elite de São Paulo já tiveram a oportunidade de ir à escola mais de 20 dias a mais do que a maioria das crianças da rede pública desde o início da pandemia de coronavírus.

A reportagem levantou com pais e com as próprias escolas particulares quantos momentos de atividades presenciais foram oferecidos desde outubro do ano passado na educação infantil, etapa em que a presença do aluno é considerada mais importante.

Foram, em média, 18 dias de escola aberta para cada turma de outubro a dezembro de 2020, em colégios como Albert Sabin, Pentágono, Santa Maria e Vera Cruz, e sete neste ano.
As escolas da capital paulista foram autorizadas a reabrir para atividades presenciais extracurriculares em outubro de 2020 e para atividades regulares no início deste mês.

Segundo o Sieeesp (sindicato das escolas particulares), a maioria das escolas do setor optou por reabrir já no ano passado, principalmente as que atendem a crianças de zero a três anos, já que nessa faixa etária a escolarização não é obrigatória e muitos pais, descontentes com o ensino remoto, já vinham desmatriculando seus filhos, promovendo uma crise no setor.

Na educação pública, foi diferente. Na rede municipal, a decisão de reabrir ou não ficou a cargo dos conselhos das escolas, compostos de pais, professores e membros da gestão. Conforme publicou o jornal Folha de S.Paulo em janeiro, 99% das escolas municipais ficaram fechadas de março até o fim do ano na cidade de São Paulo, mesma situação de 48% das estaduais na capital paulista.

Sem aula presencial, foi oferecido ao aluno conteúdo remoto, seja via internet, televisão e rádio, seja por meio de atividades impressas entregues às famílias. Grande parte dos estudantes (cerca de um terço na rede municipal), porém, não participou de nenhuma forma.

Neste ano, com a liberação de atividades regulares, colégios particulares reabriram no dia 1º, estaduais na última segunda (8) e municipais optaram por voltar no dia 15 e usar a primeira quinzena do mês para treinar educadores na nova realidade de ensino híbrido (remoto e presencial).

Embora as regras do Plano São Paulo já permitissem que o atendimento aumentasse para 70% dos alunos por turno, o governo e a prefeitura mantiveram o limite de 35%.

Cultivar o vínculo com a escola é uma das principais vantagens que a abertura para atividades extracurriculares trouxe, avalia Anna Helena Altenfelder, do Cenpec (Centro de Pesquisa para Educação e Cultura). “Os alunos chegam com experiências muito marcantes de perdas e problemas financeiros, então o primeiro movimento que a escola tem que fazer é o acolhimento.”

A presença física na escola também é fundamental para a alfabetização, diz, pois a atenção individual à criança nessa fase é muito importante, assim como a interação das crianças entre si, pela observação do trabalho umas das outras e pela colaboração.

Professora da educação infantil do Colégio Santa Maria, na zona sul de São Paulo, Gisele Magalhães Coli conta que sentiu diferença significativa no retorno das crianças em relação aos anteriores, em que a volta após um tempo longe da sala de aula vinha com um choro de adaptação.

Além da alegria dos alunos voltar a ver os colegas, chamou a sua atenção a questão motora. “Como as crianças ficaram dentro de casa, elas começaram a cair e tropeçar mais.”

A psicóloga Marcela Schiavon enviou os filhos de 7 e 3 anos ao colégio na primeira oportunidade que teve de atividade presencial e diz ter notado também uma grande diferença na disposição para as atividades. “Até o ânimo para o online aumentou”, afirma.

Já a empresária Daniele Posenato decidiu enviar a filha ao Pentágono no início deste ano, após observar como estava sendo a volta e se sentir segura. “Ir a locais como parques já não estava mais suprindo a necessidade dela de ver outras crianças. Ela falava: ‘mãe, vou ficar presa em casa?’.”

A dimensão do efeito que o fechamento generalizado de escolas devido à Covid terá sobre a educação ainda não é totalmente conhecida, por não haver paralelo com outro período. Mas um estudo do Banco Mundial mostra o impacto que pode ter a suspensão das aulas mesmo por um período menor.

Os pesquisadores analisaram o impacto da extensão das férias escolares por duas a três semanas em 2009, em decorrência da circulação do vírus H1N1, e concluíram que ela resultou em perda de aprendizado equivalente a dois meses em matemática. Um dos autores do estudo, o economista Ildo José Lautharte Júnior diz que o “efeito esquecimento” observado pelo estudo será agravado, no cenário atual, pela vulnerabilidade econômica e pelo impacto emocional devido à crise da Covid.

A reportagem questionou a Secretaria da Educação municipal sobre a disparidade de acesso à escola presencial dos alunos de escolas públicas e particulares na capital.

A pasta diz que “é errado afirmar que as escolas particulares tiveram mais aulas presenciais do que as públicas, uma vez que todas tiveram autorização para o retorno das atividades extracurriculares presenciais na mesma data”. “A pasta não compactua com a comparação entre redes, já que cada uma possui suas próprias características e necessidades.”

A secretaria informa ainda que fez avaliação para saber o nível de aprendizado dos estudantes no período de isolamento social e que os resultados irão ditar a recuperação ao longo do ano. Afirma ainda que, como em 2020, o esforço será para que nenhum aluno fique para trás, citando a entrega de 450 mil tablets.

Subsecretário de articulação regional da Secretaria da Educação estadual, Patrick Tranjan diz que a ideia é, nas próximas semanas, adequar o atendimento presencial aos alunos ao limite do Plano São Paulo e que isso não foi feito no início do ano letivo porque a mudança de fase no plano ocorreu numa sexta-feira, a dois dias da reabertura das escolas, quando a comunicação com as famílias já tinha sido feita.

“A Secretaria da Educação continua defendendo a educação presencial e que a escola seja a última coisa a fechar.”

A pasta estadual afirma que foi pioneira na transmissão de aulas por meio de aplicativo, TV e redes sociais e que, desde setembro de 2020, 2 milhões de estudantes em 1.800 mil escolas estaduais de SP frequentaram as unidades para reforço e acolhimento emocional.

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